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faz-se tarde. e voar nunca foi ponte para lugar nenhum. apenas instigação ao delito. de pensamento fora de alcance. de sentimento fora de sítio. inspiração forçada e farta. farto-me. dos dias que se vergam por tão pouco. sem que me dês ao menos o benefício de um só dia desviado ao teu chão seguro. reclamo-te em vão. eu sei. mas não quero explicar porque adormeço de olhos abertos. é tarde. digo-te que é tarde. passaram muitos invernos e acabei por decorar o ciclo das folhas. agora o coração vive na eterna sombra de rios rubros e rumorosos. de sal fino e rosas aquáticas. que a paixão é do domínio do fogo extinto. por precaução. insustentável mesmo é viver com a respiração trémula ávida e dolorosa. e tudo não passa de uma estratégia para contornar a sede. incontornável no avesso da pele. contudo não há outra forma de viver. atrevo-me. não ter medo é transgredir. e eu transgrido e tenho medo. digo que não posso mais e posso sempre. digo que vou parar e não paro. imparável é a ascensão do precário. só não sei onde vou perder o pé. espero. nada ganho. mas espero subindo.
pulei a cerca do quintal. estou só num lugar que não fica nem acima nem abaixo nem ao centro. mas dentro. de um fora deste mundo. abundante é o fermento que me cresce a alma. e suspeito que só existe uma porta. uma porta que se abre para dentro como uma despedida. para enxergar neste escuro é indispensável largar o olhar desarmado e encostar o ouvido ao chão. basta-me um sentido para compreender o silêncio. este silêncio concreto de ti. basta-me um só sentido. sigiloso. há-de passar um dia. depois outro. ainda outro. e será sempre tarde. insisto que é tarde porque ainda nada foi dito. este é o último dia. tudo o que resta é o silêncio em fiapos e uma réstia de anseios. como se as mãos desistentes deixassem cair o tempo no rasto de uma ave morrente.
quase nada.
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