onde o chão se acaba

onde o chão se acaba




Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

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há vultos que são como homens tristes redesenhados pelo punho da eternidade. os olhos desfocados pelo risco inesperado de um espelho atravessado por uma sombra. estrelas silenciosas que amanhecem desejos humanos. como se tudo se passasse dentro de um sonho. reino sem corpo nem sal e um deus que segura o mundo.
há sempre alguém a acordar dentro de uma nuvem escura ou a morrer à beira de uma fonte. há sempre um lugar incendiado ao lado de uma estrada lavrada de orvalho. entre a deriva de um pensamento alto e os pés pregados no chão esgaça-se um caudal de tempo e um limbo de paredes brancas. tudo se reescreve a partir do primeiro dia. então diremos: afinal havia um céu cujas estrelas espelhavam o nosso nome.
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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

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ao primeiro sinal de incumprimento dos rituais quotidianos destaca-se a crosta solitária do exílio onde a peregrinação interior se faz à distância dolorosa do que nos falta deixando à mostra a clareira onde vive a incerteza que nos perde e que nos há-de encontrar.
quando todos os nomes são registo de arestas impronunciáveis insinuo-me como uma intrusa sem dicionário na rota clandestina dos sentidos pelo lado de dentro das palavras. escarpa onde o silêncio morre devagar sublimado nas asas melancólicas de um pássaro que voa sem avistamento de tréguas. e aí nesse avesso entre as palavras que configuram silêncios de contenção e as que se revestem de lantejoulas faço-me arauto de pássaros entristecidos.
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

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só por uma estação um homem orbitou um sonho feminino. passaram os dias e as noites. vagarosamente o homem deitou raízes aquáticas e deixou a pele.
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

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nem sempre o dia desponta com a azia de véspera. em dias claros a visão de mil faces espelhadas na impavidez de um só rosto é só o resumo estilhaçado da razão. instinto que pode desbotar o alvo matérico mas não a alma. a raiva devora a lucidez com o mesmo adorno que sustenta o efémero. e no meio de tanto silêncio ainda é o silêncio que me falta. inquietam os rumores surdos e o perfil impreciso das falésias que se abrem ao peito desprevenido. abruptas. abutres. como conspirações sem teoria.


a razão não pode ser servida a qualquer custo e por qualquer método incriterioso. ou o resultado pode ser um vómito amargo e solitário. invariavelmente patético.falar claro nunca quis dizer ouvir claro. nem é por falar alto que se impõe a escuta. o entendimento é um umbigo universal e o discernimento um dote singular.é íngreme e impiedosa a calçada que nos desaloja o acessório e acrescenta a incerteza. mas é bela a linguagem que nos deixa espaços de evasão em linhas brancas capazes de conter todas as nuances do essencial.
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

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abrimos transparências nas palavras como quem esculpe pensamentos avulsos em estradas sem sentido. emudecemos incertos na espera de uma língua sem frestas abreviando a solidão em imagens que nascem onde a memória as pronuncia muito antes dos lábios. o enigma é uma morada redonda. e nós um eixo de pólos contrários. uma pálpebra que se abre e outra que adormece.
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

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quando olhas já levas a ideia do que queres ver. e a agravar este constrangimento somente o primeiro olhar do dia se aproveita para mudar o molde do mundo.

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