onde o chão se acaba

sábado, 28 de Novembro de 2009



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digo-me também no que não digo.

a palavra é um fruto perecível
e eu sou muito mais que o tecido morto de um texto.



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quarta-feira, 25 de Novembro de 2009


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a boca cheia de silêncio
e uma espécie de saciedade nessa mordaça .


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segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

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faz-se tarde. e voar nunca foi ponte para lugar nenhum. apenas instigação ao delito. de pensamento fora de alcance. de sentimento fora de sítio. inspiração forçada e farta. farto-me. dos dias que se vergam por tão pouco. sem que me dês ao menos o benefício de um só dia desviado ao teu chão seguro. reclamo-te em vão. eu sei. mas não quero explicar porque adormeço de olhos abertos. é tarde. digo-te que é tarde. passaram muitos invernos e acabei por decorar o ciclo das folhas. agora o coração vive na eterna sombra de rios rubros e rumorosos. de sal fino e rosas aquáticas. que a paixão é do domínio do fogo extinto. por precaução. insustentável mesmo é viver com a respiração trémula ávida e dolorosa. e tudo não passa de uma estratégia para contornar a sede. incontornável no avesso da pele. contudo não há outra forma de viver. atrevo-me. não ter medo é transgredir. e eu transgrido e tenho medo. digo que não posso mais e posso sempre. digo que vou parar e não paro. imparável é a ascensão do precário. só não sei onde vou perder o pé. espero. nada ganho. mas espero subindo.
pulei a cerca do quintal. estou só num lugar que não fica nem acima nem abaixo nem ao centro. mas dentro. de um fora deste mundo. abundante é o fermento que me cresce a alma. e suspeito que só existe uma porta. uma porta que se abre para dentro como uma despedida. para enxergar neste escuro é indispensável largar o olhar desarmado e encostar o ouvido ao chão. basta-me um sentido para compreender o silêncio. este silêncio concreto de ti. basta-me um só sentido. sigiloso. há-de passar um dia. depois outro. ainda outro. e será sempre tarde. insisto que é tarde porque ainda nada foi dito. este é o último dia. tudo o que resta é o silêncio em fiapos e uma réstia de anseios. como se as mãos desistentes deixassem cair o tempo no rasto de uma ave morrente.
quase nada.

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quinta-feira, 19 de Novembro de 2009


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não sei se é inglória a luta que ao invés de opor encaixa os perfis de bordos abertos como feridas em suturas dialogantes. não sei se o pó do tempo tem propriedades cicatrizantes ou efeito placebo. à laia de ensaio clínico em almas cobaias. não sei se o investimento da respiração em causas perdidas reduz o ar nos pulmões ou acrescenta o caudal das artérias. não sei.
mas sei que nada é neutro ou inócuo.
e sei também que somos corpos animados até gastar a corda no esforço inútil de construir telhados. noite após noite os pensamentos são alucinações do que diremos e faremos a seguir. no passo certo do tempo uma incerta sementeira de sulcos e um corpo habitado de silêncio. a ausência é uma sede que se abre sobre o abismo e tem o diâmetro do coração.

lá fora o orvalho ilumina a noite.

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terça-feira, 17 de Novembro de 2009


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não digas nada. não precisas de dizer nada.
há uma insinuação no silêncio que me encolhe o peito. e nada existe dentro das palavras que não me reduza a ínfima semente.

tudo é maior do que eu. até o amor.

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domingo, 15 de Novembro de 2009

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às vezes sou surda. outras vezes sou muda. sempre lúcida e distraída. rotativa. não digo mais que o irrelevante. terão que me adivinhar o essencial. sou no silêncio.
se decido fechar os olhos é para não pisar o mundo. e não me interessa saber se o faço por virtude ou penitência. escolho sempre o lado onde bate o sol. seduz-me essa linha aparente onde a luz e a sombra se tocam no passo fugidio do tempo. conheço tão bem a estrada que me distraio. às vezes dou conta que já não é a mesma estrada. impacientam-me as paragens.

a minha natureza é ser quieta e calada. sou de explosões pontuais. tão demolidoras que fico outra vez quieta e calada. encho-me de vida invisível e às vezes colido com o mundo concreto. não quero saber de trânsitos astrais. nem choque de cometas. estou aqui de passagem. foi essa a condição. não adianta fintar o tempo ou fingir que sou profeta. as noites e os dias foram programados até à eternidade. nós não.

ainda insisto. porque quero muito mais do que o contorno de uma natureza morta.
e resisto. tentando ganhar a semente sem desbridar o fruto.
sou apenas um reflexo. dependente de um ângulo favorável de luz. transformo-me sem predizer intenções. qualquer grão de luz é potencial clareira farta que se desdobra em sulcos de coisas breves. mas nenhuma luz é para sempre luz. e do outro lado da luz já não é luz. na falta de cura para o corpo inventa-se a maquilhagem.

digo-me em segredos. confessados às pedras. quando morrer vou deixar a herança a uma flor. não quero ficar aqui a pesar mais do que um perfume. olho o vazio e as palavras acontecem-me. arrasto-as para o fundo falso das gavetas. como palavras condenadas à morte. e fico de guarda aos dias ímpares. é nestes dias que ouço o silêncio bulir como um gemido. são as palavras a gangrenar. quando o silêncio se torna ruidoso o acessório é um mal menor. então escrevo.


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sábado, 14 de Novembro de 2009

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quando a dor é uma parte da lucidez não existe agonia. há só um dia que sobe e outro que desce. em comprimentos iguais. o silêncio que sobra é caução do espanto.

ardem as sombras na inexistência dos dias.

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quinta-feira, 12 de Novembro de 2009


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fora do alcance dos olhos desfilam-te vislumbres. falsos e fartos.
das asas sem pássaros às florestas de cristal vão só uns versos sem rima. denúncia de um álibi. o estado lábil dos laços. a falta de raízes.
em comum temos a dor. aconchegada. e o selo sépia da idade.
um chão de bússolas quebrado.

(nunca tive a tentação dos malmequeres)

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